IV SEMINÁRIO DE ESTUDOS CULTURAIS, IDENTIDADES E RELAÇÕES INTERÉTNICAS GT 5 -MEDIAÇÕES CULTURAIS: IDENTIDADES E PODER ENTRE A MORTE SOFRIDA, A MORTE VIVIDA E O ALÉM OBSCURO NA IDADE MÉDIA: ANÁLISE HISTORIOGRÁFICA

Description
Neste trabalho nos reservaremos à análise da maneira que os historiadores interpretaram e compreenderam a constituição de práticas e a elaboração de discursos relacionados a morte no período medieval. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma

Please download to get full document.

View again

of 20
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Information
Category:

Technology

Publish on:

Views: 10 | Pages: 20

Extension: PDF | Download: 0

Share
Tags
Transcript
  IV SEMINÁRIO DE ESTUDOS CULTURAIS, IDENTIDADES E RELAÇÕES INTERÉTNICAS GT 5 - MEDIAÇÕES CULTURAIS: IDENTIDADES E PODER ENTRE A MORTE SOFRIDA, A MORTE VIVIDA E O ALÉM OBSCURO NA IDADE MÉDIA: ANÁLISE HISTORIOGRÁFICA Airles Almeida dos Santos   ENTRE A MORTE SOFRIDA, A MORTE VIVIDA E O ALÉM OBSCURO NA IDADE MÉDIA: ANÁLISE HISTORIOGRÁFICA Autora: Airles Almeida dos Santos Graduada em História pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Vivarium (Núcleo Nordeste). airlesalmeida@hotmail.com  Resumo Neste trabalho nos reservaremos à análise da maneira que os historiadores interpretaram e compreenderam a constituição de práticas e a elaboração de discursos relacionados a morte no período medieval. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa bibliográfica de história comparada de algumas das produções mais significativas desses especialistas no assunto. Trataremos da temática como um estudo em História das Mentalidades e buscaremos compreender, a partir dos textos, como a Igreja na Idade Média conseguiu “inventar” o u recriar a partir de modelos antigos o tipo ideal de morte e projetá-lo no imaginário das pessoas por meio das práticas  –   um complexo de gestos e ritos que a acompanham. Gostaríamos de fornecer aos leitores a possibilidade de se compreender uma matéria de natureza subjetiva, indispensável para entendermos a complexidade da sociedade medieval. Nessa comunicação não daremos respostas conclusivas, contudo, buscaremos contribuir para o campo de estudos referentes à morte, especialmente no período medieval. Palavras-chave: Morte, Historiografia, História Comparada, Idade Média. Introdução O início do interesse pelo estudo da morte é relativamente novo na historiografia, por volta dos anos 60 e 70 do século XX, quando emergem novas maneiras de abordagens ligadas à Terceira Geração dos  Analles e influenciadas diretamente pela antropologia e pela psicologia. A produção mais abundante sobre o assunto é de srcem francesa, podendo afirmar tratar-se de uma linha de especificidade desses historiadores. Doravante  eles passam a produzir trabalhos sobre as atitudes, os comportamentos, os modos de agir, sentir e pensar o fenômeno bem como as mudanças que ele sofreu ao longo das épocas. Atualmente esses estudos tem ido além da fronteira da França e encontramos monografias, artigos e textos nos mais variados aspectos da celebração mortuária.   Debruçarmo-nos sobre a morte na Idade Média é um elemento de extrema relevância para entendermos a complexidade da sociedade medieval, seu funcionamento e suas tensões, assim como refletir sobre a forte associação entre morte/mortos e cristandade no Ocidente por meio da identificação dos lugares dos finados nos diferentes sistemas. Com esse intuito analisaremos neste artigo, como alguns historiadores interpretaram e compreenderam a constituição de práticas e a elaboração de discursos da comunidade cristã medieval relacionados à morte. A Idade Média, A morte e seus desdobramentos na Historiografia Ao selecionar e analisar as produções historiográficas que tratam do fenômeno da morte no medievo percebemos a variedade de temas, métodos e maneiras de abordagem empregadas para o desenvolvimento do estudo de cada autor. No caso do Brasil há poucos livros traduzidos e parte deles só chegam até nós, no mercado editorial brasileiro muito depois do seu lançamento. Sendo assim, nos debruçamos sobre parte do material disponível e que julgamos de importância para compreensão desse assunto atualmente tão silenciado, porém articulador das diversas esferas das sociedades.  A Civilização Feudal - Do ano mil à colonização da América (2006) de   Jérôme Baschet trata-se de um manual, cuja finalidade é buscar entender a evolução do feudalismo medieval e a criação do feudalismo colonial americano, porém não como o resultado da simples expansão desse sistema europeu nas terras do além-mar, mas sim a composição do feudalismo tardio e dependente. Na Segunda Parte se aprofunda nas estruturas mais essenciais da Idade Média através de uma série de temas transversais, em especial pra nós, a morte, fornecendo as “carnes e as vísceras, sem as quais o esqueleto não poderia nem se sustentar nem se animar”  (BASCHET, 2006, p.297). O autor é adepto da chamada Longa Duração. Dessa maneira concebe o medievo compreendido entre os séculos IV e XVIII. Segundo Baschet o espaço  como o concebemos não tem correspondência na Idade Média, devendo-se levar em conta que a  noção de espaço medieval só existe a partir das coisas que existem nele. Dessa maneira, no que diz respeito à relação ente os vivos e os mortos, estes passam a ser o centro material e simbólico da vida daqueles “ao final de um processo que se inicia no  século VIII e se concluí para alé m do século XI”  (BASCHET, 2006, p.342). O cemitério paroquial possui agora valor sagrado, um lugar de inclusão/exclusão que circunda a igreja. Por trás desse deslocamento de significado dos mortos para o centro da questão e a aproximação deles aos vivos está a Igreja. Esse redirecionamento espacial dos defuntos permite a ela definir a unidade da comunidade ao seu redor, ao mesmo tempo em que transforma a comunidade morta na representação ideal da sociedade. A partir de então, os vivos aparecem metaforicamente como a sombra dos mortos. A “Instituição dominante do feudalismo”, nas palavras de Baschet , é responsável também pela elaboração da sofisticada geografia do além, com significações adaptadas e com evoluções ao longo do tempo e que passa a ordenar a visão medieval de mundo tornando-se decisiva para enfatizar a posição de “instância salvadora”  da Igreja, na medida em que a existência do mal acaba paradoxalmente por supervalorizar suas forças opostas (santos, Cristo, os anjos e o papel de mediador do clero). Além do mais a Igreja é a possuidora de práticas e sacramentos que afastam o homem do mal, onde a denúncia dos vícios a faz difundir seus valores e “monopoliza” as métodos da salvação. Percebemos então o papel atribuído por Jérôme Baschet à Igreja, classificada como verdadeira definidora das relações sociais e criadora de estruturas e conjunturas que permite sua dominação a partir da forte tensão da junção dos contrários, pela explicação do inexplicável, pela hierarquização de entidades de natureza diversa e pela igualdade de entidades de natureza oposta. Para ele a criação da Igreja foi proporcionada graças à dinâmica do sistema feudal, ao qual ela organiza e domina. No entanto, resta-nos perceber os limites dessa dominação e identificar o quanto consegue “inventar” ou recriar a parti r de modos antigos o tipo ideal de morte e projetá-lo no imaginário das pessoas. É fato a amplitude do papel desempenhado por essa instituição que sobrevive ao fim da Idade Média, porém sua total hegemonia citada pelo autor nas práticas mortuárias e na imposição de relações tidas “ incontestáveis ”  entre vivos e mortos são questionáveis. A Igreja-Instituição caracteriza-se pelo seu caráter ambivalente, ora afirmando, ora negando pontos no que diz respeito à afirmação da  ortodoxia; ora admitindo, ora perseguindo os que lhe contestavam  –   e isso faz surgir contendas dentro e fora dela. Baschet a analisa menos sobre um fator religioso que como modelo social. Partindo dessa exposição poderíamos nos perguntar: conseguiria a Igreja impor essas formas oficiais de lidar com os mortos a ponto de assegurar a sua hegemonia perante o estrato social? Conseguiria ela impedir o surgimento de práticas extraoficiais e sua coexistência com as “verdadeiras”? No que diz respeito às praticas mortuárias, sabemos que por mais que seu poder de alcance fosse longo, a instituição jamais poderia possuir o monopólio de tais posturas. À época, existiam outras concepções sobre os mortos diferentes e até mesmo convergentes em relação às pregadas oficialmente, como por exemplo, a noção de “purgatório terrestre” elaborado pelos habitantes de Montaillou,  citada no próprio livro, totalmente incompatível com a ensinada. Outro exemplo diz respeito à presença reforçada do inferno que ao mesmo tempo em que favorece o controle social conduzido pela Igreja apresenta limites nesse domínio, não devendo assim exagerar sua eficácia devido ao fato de existir nos cristãos um sentimento de misericórdia divina, o que não é “ surpreendente ver os clérigos batalharem sem trégua, durante séculos e mesmo além da Idade Média”  (BASCHET, 2006, p.400). O que chama atenção é que apesar de expor os limites de dominação e a contestação que a Igreja sofria, para o historiador essa mesma confrontação permitiu que a dominação se reforçasse. Contrariamente a visão dos que afirmam ser a Igreja a instituição dominante da sociedade medieval, Vovelle nos explica A imagem de um além maquiavélico, invenção dos poderosos para assegurar a docilidade dos humildes, tal como os filósofos do século XVIII a conformaram, é uma tradução pobre que poderá parecer contraditória. Há contra-sistemas que se apoiam na morte para inverter simbolicamente a hierarquia dos poderes. Assim é a dança macabra medieval (VOVELLE, 1996, p.25).  Compreendemos assim, por mais que a elaboração da imagem da morte fosse utilizada como forma de manutenção de poder por parte da Igreja, esse poder nunca ficou livre de contestações e que sistemas de representação antigos com variedades de costumes mantinham força ao longo da Idade Média, mesmo quando o relativo desinteresse da Igreja pelos mortos cessou. Outra obra significativa e inovadora é Os vivos e os mortos na sociedade
Related Search
Similar documents
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks