Intersubjetividade e solipsismo nas Meditações Cartesianas de Husserl

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   Allan J. Vieira é mestrando do Programa de Pós-graduação em Filosofia - UFSC I NTERSUBJETIVIDADE E SOLIPSISMO NAS M  EDITAÇÕES C  ARTESIANAS   DE H USSERL   Allan J. Vieira Resumo: O presente artigo visa discutir a temática do solipsismo a partir da leitura das  Meditações cartesianas  de Husserl. A questão que emerge é referente ao estatuto da fenomenologia enquanto idealismo transcendental, tal como exposto nas  Meditações , e, a partir daí, à irrupção do solipsismo. Com efeito, ao praticar a redução fenomenológica e identificar a fenomenologia com uma egologia, o próprio Husserl adverte para o surgimento de um “solipsismo aparente”. E, após construir o itinerário que, ao longo das quatro primeiras meditações, o conduz à afirmação de que a fenomenologia deve ser um novo tipo de idealismo transcendental, Husserl inicia a quinta meditação, dedicada ao tema da intersubjetividade, colocando explicitamente a questão relativa à objeção do solipsismo que poderia ser dirigida contra a fenomenologia. Mas, se, tal como é apontado nas  Meditações,  a redução não altera em nada o sentido que o mundo tem para o ego  transcendental, ficando, desse modo, suspensa apenas a tese geral da atitude natural relativa à existência fática do mundo, não deveria a esfera intersubjetiva ser mantida, na qualidade de puro correlato noemático? A redução já não se revela, desde o princípio, como intersubjetiva? Assim, o problema que se pretende investigar é o sentido que o solipsismo  possui na fenomenologia, tendo como ponto de partida as  Meditações cartesianas . O objetivo é  buscar estabelecer de que maneira esse solipsismo pode encontrar um sentido legítimo dentro da fenomenologia transcendental e de que modo Husserl procura ultrapassar essa questão. Palavras-chave: Fenomenologia. Intersubjetividade. Solipsismo. Husserl. Abstract: This present article aims to discuss the solipsism theme from the reading of Husserl's Cartesian  Meditations. The question that emerges is related to the status of phenomenology as a transcendental idealism, as exposed in the Meditations, and, from there, the inrush of solipsism.  Indeed, by doing the phenomenological reduction and identifying the phenomenology as egology, Husserl himself warns of the emergence of an "apparent solipsism". And after building the itinerary that over the first four meditations, leads it to the assertion, that the  phenomenology must be a new kind of transcendental idealism, Husserl begins the fifth meditation dedicated to the theme of intersubjectivity, explicitly placing the issue related to the objection of solipsism that could be directed against phenomenology. However, as it is pointed out in the Meditations, the reduction doesn’t alter the sense that the world has for the transcendental ego, being thus, suspended only the general thesis of the natural attitude on the  factual existence of the world, shouldn’t the intersubjec tive sphere be maintained as pure noematic correlate? The reduction doesn’t reveal itself, since the beginning, as intersubjective? Thus, the problem being investigated is the sense that solipsism has phenomenology, taking as its point of departure the Cartesian Meditations. The aim is to seek to establish how this  solipsism could find a legitimate sense in the transcendental phenomenology and how Husserl  seeks to overcome this issue. Keywords:  Phenomenology. Intersubjectivity. Solipsism. Husserl.  PERI   v. 06   n. 01   2014   p. 126-148 127 1. Fenomenologia e solipsismo O tema da intersubjetividade constitui um dos maiores interesses presentes nas  Meditações cartesianas  de Husserl. A discussão sobre o assunto ocupa toda a quinta meditação, que, sozinha, apresenta quase a mesma extensão que as quatro anteriores  juntas. No entanto, a importância do tema não se resume ao mero aspecto quantitativo: a  própria sorte da fenomenologia transcendental está em jogo. A objeção do solipsismo, cuja superação necessita do esclarecimento sobre a possibilidade de uma intersubjetividade transcendental, representa uma ameaça à pretensão da fenomenologia em ser uma filosofia transcendental e poder assegurar a objetividade de seu conhecimento (HUSSERL, 2010, p. 131). A posição do problema do solipsismo e a consequente análise fenomenológica sobre a experiência de um alter ego , na quinta meditação, determinam o ponto culminante de todo o curso das reflexões desenvolvidas na obra anteriormente. Com efeito, Husserl, na primeira meditação, inicia apontando a necessidade de um começo radical para a filosofia e para a fundamentação das ciências. Tal exigência o conduz, tal como em Descartes, ao ego cogito , à evidência apodítica da experiência de si mesmo, face à dubitabilidade da existência fática do mundo (HUSSERL, 2010, p. 67). Esse movimento de virada em direção à experiência imanente é o resultado da epoché , da suspensão das questões relativas ao ser ou não ser do mundo 1 . O ego , como pedra de toque da fenomenologia, não é o ego  de Descartes, encarado como uma premissa da qual se extrairiam a objetividade e o retorno ao mundo exterior. Trata-se do ego transcendental, da vida da consciência que abarca em si o conteúdo que lhe é próprio (a multiplicidade de vivências e de seus correlatos  –   os objetos aí visados) como campo de experiência transcendental para o fenomenólogo. Tudo aquilo que era tido como existente, anteriormente à reflexão, mantém-se inalterado em seu sentido; apenas se encontra, agora, reduzido a um simples “fenômeno de ser” (HUSSERL, 2010, p. 68 -69). O resultado da epoché  que deve ser enfatizado, de acordo com Smith (2003, p. 23), é que tudo o que diz respeito à nossa experiência natural é mantido; seu conteúdo não é 1  Em  Ideias I  , § 30, Husserl deixa claro que se trata da excl usão de circuito da “tese geral” da atitude natural, isto é, da atitude na qual se está envolvido na vida cotidiana, dirigida de forma direta e ingênua às coisas do mundo. Essa tese implícita em todo pensar e agir humanos coloca o mundo como uma afetividad e, como algo que está “sempre aí” perante o sujeito.  PERI   v. 06   n. 01   2014   p. 126-148 128 alterado. Apenas foi colocado entre parênteses; não será feita nenhuma afirmação ou negação quanto à sua realidade efetiva (aquela à qual se está acostumado na experiência natural). Uma vez instituído o ponto de partida necessário, Husserl conduz suas investigações até o momento da identificação da fenomenologia com a explicitação sistemática do ego  por si mesmo (HUSSERL, 2010, p. 112). Essa elucidação da subjetividade transcendental constitutiva do sentido da realidade, por fim, é erigida em idealismo transcendental ao final da quarta meditação (HUSSERL, 2010, p. 128). No entanto, surge a questão relativa aos outros “eus”, à vida intersubjetiva que constitui um mundo para todos, objetivamente válido. A fenomenologia tem como lidar com tal  problema? Enquanto idealismo, não está a fenomenologia transcendental condenada ao enclausuramento do ego  em si mesmo e ao solipsismo? Como será possível justificar o sentido da objetividade do mundo, já sempre vivido como “aí -para-qualquer- um”, e que  permanece como portador de tal sentido, mesmo após a epoché  fenomenológica? (HUSSERL, 2010, p. 134). A dificuldade do solipsismo seria, assim, o desafio maior das  Meditações cartesianas , e cabe à quinta meditação resolver os paradoxos surgidos ao longo das meditações anteriores. Husserl estaria, desta forma, assumindo como um problema interior à própria fenomenologia aquela que é a objeção comum a toda forma de idealismo, ou seja, o impasse representado pelo solipsismo (RICOEUR, 2009, p. 214-16). 2. Empatia e intersubjetividade Ao iniciar a quinta meditação, a fim de lidar com tais questões, Husserl toma como “fio condutor transcendental” o sentido alter ego , tal como este se dá diretamente em seu conteúdo ôntico-noemático (isto é, como puro correlato de um ato da consciência  –   uma noese    –   que o visa intencionalmente). A elaboração de uma teoria transcendental da empatia , da experiência do outro, é o pórtico de entrada para a resolução das dificuldades relativas ao estatuto transcendental da objetividade do mundo. Conforme Husserl assinala: “[...] imediatamente se torna patente que o alcance de uma tal teoria é muito maior do que parece à primeira vista, dado que ela também  PERI   v. 06   n. 01   2014   p. 126-148 129 conjuntamente  funda uma teoria transcendental do mundo objetivo  [...] ” (HUSSERL, 2010, p. 134, grifo do srcinal). Dando início às investigações, Husserl põe em movimento o que ele julga ser o  primeiro expediente metodológico necessário à consecução desta tarefa: a chamada “redução à esfera de propriedade”, isto é, a abstração  de tudo aquilo que remete à subjetividade alheia (o outro como alter ego  e o que deriva disso, como os objetos de cultura e a objetividade de um mundo compartilhado intersubjetivamente) (HUSSERL, 2010, p. 134- 35). Ou seja, do fenômeno transcendental “mundo”, é retirada abstrativamente a camada de sentido fundada que remete à constituição intersubjetiva.  No estrato noemático restante, permanece o fenômeno do corpo orgânico próprio (  Leib ), ou  soma . Trata-se da unidade psicofísica pela qual o ego  transcendental se reconhece como “um homem”. A partir da í, por meio da semelhança entre o soma próprio e o corpo de outrem que aparece no campo perceptivo do ego , ocorre uma “apercepção analógica”, na qual o sentido da unidade psicofísica é transferido ao outro, que, então, é constituído como um alter ego  (HUSSERL, 2010, p. 150). Uma vez explicitada a experiência de outrem, a camada noemática da esfera de propriedade, constituída apenas  por aquilo que é próprio ao ego , recebe um segundo estrato de sentido, proveniente da efetivação da empatia, estabelecendo deste modo, o sentido de um mundo intersubjetivamente compartilhado, objetivo, não mais dependente apenas das vivências do ego  transcendental srcinário (HUSSERL, 2010, p. 162). Contudo, a constituição dessa camada posterior, tendo início com a empatia, só é possível graças à inacessibilidade e transcendência do outro em relação ao ego . Para Zahavi (2003, p. 116), se o outro não passasse de uma variação intencional do ego , sendo, portanto, acessível de forma direta para este, não haveria instituição de nenhuma objetividade,  pois o sentido “ alter ego ” não ultrapassaria o círculo daquilo que é próprio a o ego . Tendo como pano de fundo a transcendência e a objetividade daí resultante, compreende-se que a intersubjetividade, para Husserl, ao menos no relato da quinta meditação, não retira sua importância do fato de ser um mero episódio intramundano, mas por ser a condição para a constituição da verdadeira objetividade (ZAHAVI, 2003,  p. 120).  PERI   v. 06   n. 01   2014   p. 126-148 130 3. Uma releitura do problema do solipsismo Ao fim da breve exposição da colocação da objeção do solipsismo e da solução oferecida por Husserl, a questão que se pretende estabelecer e discutir diz respeito a algo que pode ser considerado como anterior a todo esse trajeto teórico. Com efeito, ela diz respeito ao próprio estatuto do problema posto por Husserl ao início da quinta meditação. Dado que a redução fenomenológica m antém, apenas no modo “entre  parênteses”, tudo aquilo que já tem sentido e validade de ser na atitude natural, não estaria aí incluída a própria dimensão referente aos outros? A redução não é, portanto, intersubjetiva desde o seu ponto de partida? E, tendo isso em conta, ainda seria  justificada a colocação da objeção do solipsismo? De um modo geral, esta é a pergunta lançada por San Martin (1993). A argumentação deste autor visa abordar a questão sobre o solipsismo na filosofia de Husserl de um ponto de vista que parece tornar desnecessária a posição deste tipo de crítica em relação à fenomenologia. Assim, o próprio Husserl seria vítima de  preconceitos implícitos que o teriam levado a aceitar o desafio que, tradicionalmente, é direcionado às filosofias idealistas. Husserl opera com diversos sentidos para o termo “solipsismo”. O primeiro deles seria o “solipsismo cético” (SAN MARTÍN, 1993, p. 241 ss.). Este é o resultado da crítica da experiência, tal como esboçada por Husserl no início das  Meditações , que leva à afirmação da certeza e primazia da experiência imanente (a apoditicidade do cogito ) e da presuntividade e dubitabilidade da experiência transcendente (ou seja, do mundo exterior, aí incluídos os outros). Este primeiro sentido do solipsismo é fruto da “via cartesiana” em  pregada por Husserl (a via da crítica do conhecimento que conduz à esfera transcendental). De acordo com San Martín (1993, p. 244), esse tipo de solipsismo só pode pertencer à atitude natural, que distingue entre um “interior” e um “exterior”, entre o mundo “em si” e sua representação interna pertencente ao sujeito. Logo, o solipsismo que acompanha a crítica da experiência (a via cartesiana), “[...] é, em definitivo, um solipsismo natural, isto é, afirmado totalmente na e desde a atitude natural”  (SAN MARTÍN, 1993, p. 244, tradução nossa). Em decorrência da crítica da experiência exterior, empírica, desenha- se o conceito de “solipsismo cético”.  
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