A Construção de uma Nova Representação da Periferia Carioca e o Papel dos Festivais de Cinema na sua Consolidação (The Construction of a New Representation of the Carioca Periphery and the Role of Film Festivals in its Consolidation)

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No presente trabalho, será discutido o surgimento de um novo tipo de representação das periferias através do cinema contemporâneo. Serão ressaltados alguns aspectos principais do conceito de representação, sendo enfatizada, em seguida, a forte

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  SELDIN, C.; MARTINS, R.R.; ROCHA, R.R.D. A Construção de uma Nova Representação da Periferia Carioca e o Papel dos Festivais de Cinema na sua Consolidação. In: Anais do   XIV Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ENANPUR). Recife: ANPUR, 2013, 1 CD-ROM.   * Este artigo foi srcinalmente escrito para apresentação e publicação no XV ENANPUR, em maio de 2013. ** Claudia Seldin é mestre em Urbanismo e aluna do curso de Doutorado em Urbanismo do PROURB/FAU-UFRJ; Raquel Ribeiro Martins e Rosa Richter Diaz Rocha são alunas do curso de Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ. As autoras são bolsistas do projeto de pesquisa “Culturas e Resistências na Cidade”, coordenado pela Prof. Dra. Lilian Fessler Vaz no PROURB/FAU-UFRJ, com apoio do CNPq. A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA REPRESENTAÇÃO DA PERIFERIA CARIOCA E O PAPEL DOS FESTIVAIS DE CINEMA NA SUA CONSOLIDAÇÃO * Claudia Seldin ** Raquel Ribeiro Martins Rosa Richter Diaz Rocha Resumo No presente trabalho, será discutido o surgimento de um novo tipo de representação das periferias através do cinema contemporâneo. Serão ressaltados alguns aspectos principais do conceito de representação, sendo enfatizada, em seguida, a forte relação existente entre a cidade e o cinema, desde sua concepção no final do século XIX até os dias atuais, de modo a justificar a escolha desta modalidade representativa para a análise do espaço urbano, em especial das periferias cariocas. Será realizado, então, um breve apanhado histórico dos diferentes tipos de representação associados às periferias do Rio de Janeiro, com apoio no conceito de “espaços opacos” para auxiliar na definição do recorte de pesquisa escolhido. Será apontada como a visão destes espaços se transformou ao longo do tempo, agregando e superpondo novas imagens (exótica, perigosa e pestilenta, romântica, violenta...) até chegar ao que começa a se constituir, hoje, como um novo tipo de representação e cujo principal veículo é o “ cinema de periferia ” . Por fim, serão abordadas as características desta nova forma de enxergar os “espaços opacos” , sendo apresentado também um breve estudo de caso comparativo entre dois festivais cinematográficos que objetivam a visibilidade das zonas periféricas, porém com propriedades, produtores e público distintos: o “ Curta Vila Kennedy ”  e o “ Visões Periféricas ” . Palavras-chave:  Cinema e cidade; “ Espaços opacos ” ; Festivais; Periferia; Representação.  2 A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA REPRESENTAÇÃO DA PERIFERIA CARIOCA E O PAPEL DOS FESTIVAIS DE CINEMA NA SUA CONSOLIDAÇÃO Cada cidadão tem vastas associações com alguma parte de sua cidade, e a imagem de cada um está impregnada de lembranças e significados. Os elementos móveis de uma cidade e, em especial, as pessoas e suas atividades, são tão importantes quanto as partes físicas estacionárias. Não somos meros observadores do espetáculo, mas parte dele; compartilhamos o mesmo palco com os outros participantes (LYNCH, 2010, p. 01-02). Introdução: cidade e cultura Com as palavras acima, Kevin Lynch introduzia em seu livro “A i magem da cidade ”  (2010), a ideia da importância da esfera cultural para a compreensão do espaço urbano, apresentando este como um sistema que vai além da dimensão física e incorpora a produção social de seus habitantes –  responsáveis por modificar a cidade constantemente numa relação de reciprocidade. No presente artigo, aprofundaremos esta visão que busca o entendimento da cidade através da sua relação com a cultura. Partindo da crença de que a reflexão urbanística não deve se limitar apenas ao planejamento espacial ou à análise do já construído e já habitado, procuraremos enfatizar a necessidade de considerar sempre a dinâmica do processo de construção do espaço em tempo real, nos aproximando da ideia do filósofo e sociólogo Pierre Sansot a respeito da “poética da cidade” (1988 apud Velloso, 2004, p. 14) –  um conceito que enfatiza o vínculo primordial entre o espaço urbano e os homens e “pressupõe o habitante das cidades no exercício de sua condição enquanto ser observador ( être voyant ) e ser fundador ( être  fondateur  )” ( Velloso, 2004, p. 14). Para analisar esta relação entre observação e fundação da cidade, propomos o desenvolvimento, aqui, de uma análise do espaço urbano –  mais especificamente das periferias urbanas –  através da representação artística, em especial do cinema. Sobre representação O conceito de representação deve ser tratado com certa cautela, principalmente porque, conforme indica o sociólogo norte-americano Howard S. Becker (2010), ele está sempre conectado a uma descrição da realidade adequada a um objetivo ou contexto organizacional específico. Tanto sua criação, quanto sua análise está condicionada às características do grupo ou indivíduo responsável por sua produção e consumo. Por isso, o  3 autor considera a representação artística, principalmente as de caráter audiovisual, como “relatos da sociedade” (p. 17) , ou seja, um conjunto de arranjos que são produzidos como meios para outras pessoas nos falarem sobre realidades que, muitas vezes, não conhecemos –  outras épocas, situações, lugares, que conformam diferentes contextos sociais, culturais, econômicos e políticos –  ou, simplesmente diferentes maneiras de se enxergar nossas próprias realidades. Neste sentido, podemos afirmar que a ideia de “troca”  aparece como fator fundamental para a representação, tanto no que se refere ao intercâmbio de significados, quanto à suposição de contato entre diferentes atores –  os que produzem (produtores), os que são representados e os que usam ou consomem a representação (usuários). Há, assim, uma noção de “ação coletiva” inserida na atividade artística representativa, que deve, no entanto, ser analisada cuidadosamente, uma vez que este processo implica na transformação parcial da realidade em algo visual a partir de subjetividades regidas por interesses de diferentes atores e sujeitas a diversas formas de selecionar e traduzir o real, bem como de interpretar a imagem final. O produtor torna-se, então, uma figura-chave deste processo, pois a representação é quase sempre uma função daquilo que se quer mostrar. Sob esta ótica, o ato de representar adquire também um significado político, regido “por meio de corpos institucionais ou grupos de pressão, [pelos] interesses de sujeitos políticos” como afirmam Edgar & Sedgwick (2002, p. 286) em seu dicionário de conceitos referentes à teoria cultural. A conexão do ato de representar com a construção de identidades e, portanto, com questões de ideologia, poder e dominação também é sugerida pelo historiador francês Roger Chartier. Segundo Chartier (1990), as representações dependem das disposições dos grupos e classes sociais em que são criadas e, apesar de aspirarem à universalidade, acabam sempre determinadas pelos interesses daqueles que as forjam. Isso porque as representações remetem a classificações e divisões criadas para organizar nossa apreensão do mundo social, como categorias que auxiliam na percepção do real. Para o autor, os objetos são vulneráveis em sua realidade, o que torna necessária a aplicação de símbolos para fortalecer determinada interpretação perante os olhos dos outros, fazendo com que a representação se torne um potencial instrumento para a instauração de respeito e submissão. Por esta razão, as representações não são nunca neutras, implicando em estratégias para imposições de valores e autoridade. Daí a importância, como coloca Assreuy (2012), de compreender a relação entre o discurso e a posição de quem o profere, uma vez que o discurso representativo produz estratégias e táticas que vão tentar legitimar ou transformar uma dada situação.   4 Outro ponto importante a ser considerado é que o ato de representar implica sempre em uma descrição parcial da realidade, nunca sendo capaz de absorver a totalidade do real. O cinema, por exemplo, pode ser visto como uma maneira de falar sobre a sociedade, porém implica num processo de seleção do que vai ser representado, excluindo também “a terceira dimensão, os cheiros e as sensações táteis, e [constituindo] inevitavelmente pequenas amostras do intervalo de tempo durante o qual os eventos tiveram lugar. [...] Todo meio [de representação] exclui tudo que ocorre depois que cessamos nossas atividades representacionais. [...] Mas ninguém, nem usuários nem produtores, jamais considera a incompletude em si mesma como um crime” ( Becker, 2010, p. 32). Em outras palavras, o fato das representações serem parciais em relação à realidade não constitui um problema, pois permitem a reflexão sobre o que foi representado, o debate e diferentes formas de interpretação, possibilitando o exercício de não aceitarmos apenas o que é mostrado e de compreendermos que certas representações se desfazem, outras se sobrepõem, outras se transformam, e todas são válidas de alguma maneira ao considerarmos o contexto em que foram criadas. Sob este aspecto, podemos afirmar que as representações artísticas consistem em um instrumento eficiente para a compreensão de objetos de estudo complexos, como as cidades. Cidade e cinema As cidades, desde que surgiram, despertam nos indivíduos que nelas habitam a necessidade de serem compreendidas. Neste sentido, são muitos os veículos artísticos, como a pintura, literatura, fotografia, teatro e cinema, que buscaram, e ainda buscam, interpretar e representar o espaço urbano para melhor entendê-lo. O cinema, em particular, se apresenta como um dos seus mais importantes meios de representação, uma forma de observação do espaço urbano, do cotidiano de seus habitantes, de seus fluxos e movimentos. A partir da construção de narrativas, ficcionais ou documentais, através de imagens em movimento, o cinema possibilita a composição dos já mencionados “ relatos sobre a sociedade ” de Becker (2010) e, consequentemente, sobre a cidade. Essa característica de um esforço de traduzir a realidade, em especial a realidade urbana, está presente no cinema desde seu surgimento, o qual coincide com a ascensão da modernidade e o aparecimento das primeiras cidades. Segundo Kuster (2009), a modernidade, período de bruscas mudanças em diferentes setores da sociedade e de imensa complexificação da vida, trouxe uma profunda desestabilização nos modos de ser e de viver tradicionais, e tais mudanças, assim como a  5 cidade, necessitavam de meios para sua interpretação. O cinema foi um desses importantes veículos que procuravam construir, definir, analisar ou caracterizar esse período de incertezas. O cinematógrafo dos irmãos Lumière (primeiro aparelho que se pode qualificar de cinema), assim como outras formas anteriores de construção de narrativas compostas por imagens em movimento (como o zoótropo, o praxienescópio, o quinemascópio...), foram artefatos que ajudaram a construir uma ideia mais atraente da modernidade e que possibilitaram aos indivíduos formular um entendimento melhor daquele momento para sua adaptação. As primeiras imagens cinematográficas exibidas ao público, em 1895, foram imagens do cotidiano, imagens da cidade, registradas pelos Irmãos Lumiére. Anos depois, a partir de 1920, começaram a surgir as chamadas Sinfonias Urbanas, filmes como “Rien que les heures” de Alberto Cavalcanti (1926), “Berlim: a Sinfonia da Metrópole”, de Walter Ruttman (1927) e “Um homem com uma câmera”, de Dziga Vertov (1929), os quais descreviam a cidade segundo seus ritmos e fluxos, retratavam todos os períodos da vida na urbe, desde o nascer do sol ao crepúsculo. Esses filmes propunham ao homem moderno ver-se a si próprio, bem como ao seu cotidiano, auxiliando na consolidação de uma ideia de vida moderna marcada por novos ritmos e fluxos. A vida urbana deveria se desenvolver, portanto, como os filmes –  como uma sinfonia. O cinema passou a funcionar, então, quase como um veículo pedagógico, possuindo um papel chave na modernidade ao contribuir para que os homens se acostumassem e se adaptassem à aceleração dos acontecimentos, informações e novas formas de produção. Mais de cem anos depois de seu nascimento, o cinema se desenvolveu, diversificou seus gêneros, e ainda assim, as obras audiovisuais continuam sendo uma das mais importantes formas de se falar sobre a sociedade e retratar a vida das cidades. Todo filme, seja documental ou de ficção, contém alguma observação acerca do espaço onde ocorre, alguma tradução da sociedade, como ela funciona ou é construída. Mesmo que isso não seja explícito, ao narrar a partir de imagens, os filmes estão retratando imaginários, costumes, crenças e atos que estão inseridos em um determinado momento no espaço e no tempo. No Brasil, o que percebemos no desenvolvimento das obras cinematográficas é que as periferias sempre obtiveram certo destaque nas produções, sendo representadas de diversas formas ao longo do tempo. Tais representações condiziam com o espaço temporal em que eram produzidas e também com o olhar daqueles que se propunham a retratá-las. Como Becker (2010) e Chartier (1990) observaram, as representações artísticas implicam em
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