2012 CARVALHO, I. C. M. ; TONIOL, R. F. . Ambientalização, cultura e educação: diálogos, traduções e inteligibilidades possíveis desde um estudo antropológico da educação ambiental

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  CARVALHO, I. C. M. ; TONIOL, R. F . Ambientalização, cultura e educação: diálogos, traduções e inteligibilidades possíveis desde um estudo antropológico da educação ambiental. In: BERBEL, N. A.N..; PULLIN E.N.M.. (Org.). PESQUISAS EM EDUCAÇÃO: INQUIETAÇÕES E DESAFIOS. 1ed.Londrina: Editora da UEL, 2012, v. 1, p. 523-538. Ambientalização, cultura e educação: diálogos, traduções e inteligibilidades possíveis desde um estudo antropológico da educação ambiental  1     Isabel C. M. Carvalho 2    Rodrigo Toniol  3   1. Introdução  Neste artigo compartilhamos com os pesquisadores em educação ambiental parte das questões que temos neste momento como horizonte de investigação. A pesquisa da qual deriva este artigo se realiza no âmbito da linha de pesquisa Teorias e Culturas em Educação  do Programa de Pós-Graduação (PPGEDU) da PUCRS e do Grupo de Pesquisa Cultura, Ambiente e  Educação  do CNPq. A pesquisa acontece em parceria entre o Programa de Pós-Graduação da PUCRS e o Núcleo de Estudos da Religião (NER) do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O que estabelecemos como objetivo da investigação é a analise dos processos de ambientalização da sociedade brasileira na área da educação, focalizando particularmente a educação ambiental. Entendemos por ambientalização o processo de internalização nas práticas sociais e nas orientações individuais de valores éticos, estéticos e morais em torno do cuidado com o ambiente. Estes valores se expressam na sociedade contemporânea em preocupações tais como aquelas com a integridade, a preservação e o uso sustentável dos bens ambientais. Os processos de ambientalização têm uma dimensão educativa importante que reside, sobretudo, na formação 1  Este artigo teve sua versão final elaborada em janeiro de 2011. Resulta da apresentação em mesa redonda na ANPED Sul, em Londrina, em julho de 2010. O paper, srcinalmente elaborado para a mesa redonda CEPEASUL, também foi base de uma apresentação no Grupo de Trabalho do CEPEASUL, em Itajaí, em Setembro de 2010. 2  Psicóloga, Doutora em educação, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. E-mail: isabel.carvalho@pucrs.br    3  Bacharel em Ciências Sociais, mestrando em antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: rodrigo.toniol@gmail.com  2 ética, estética e moral de sujeitos e instituições ambientalmente orientados. A ambientalização das agendas das instituições e dos movimentos sociais pode ser identificada na esfera pública tanto na emergência de questões e práticas ambientais como um fenômeno novo quanto na reconfiguração de práticas e lutas tradicionais que se transformam ao incorporar aspectos ambientais. Para objetivar estes processos, a metodologia desta pesquisa recorrerá a observação  participante e a etnografia de práticas educativas. Com isto busca compreender a configuração de um habitus  (Bourdieu, 1996) ou ainda, de um idioma ecológico (  Comarroff &Comaroff   , 2001)  na sociedade. Ao mesmo tempo, o estudo procurará apontar para o caminho inverso, isto é, das transformações que vem ocorrendo na própria noção e no significado do que seja ambiental a  partir da sua incorporação no âmbito das instituições educacionais. Por fim, com a apresentação desta pesquisa enfatizamos nossa aposta na produtividade deste caminho que vimos percorrendo nos últimos anos que é o estabelecimento de um diálogo interdisciplinar entre educação e antropologia, e suas possibilidades para pensar uma antropologia da educação, notadamente, em nosso caso, uma antropologia da educação ambiental (EA). 2. De onde partimos: nossa hipótese de trabalho  Nossa hipótese de trabalho é que tanto a educação como a religião no contexto contemporâneo sofrem um deslocamento que tem aproximado estas esferas da experiência social do campo da problemática ambiental. Evidentemente não se trata de anular sua dimensão social e substitui-la por uma suposta natureza ambiental. Aqui nos referimos a uma questão de ênfase e de modos de percepção histórico-sociais que definem o modo predominante pelo qual fenômenos do campo religioso e educativo passam a ser associados ao campo ambiental, sem que com isso deixem de ser percebidos como processos sociais. Contudo, enquanto processos sociais que não deixaram de ser passam a fazer parte de um movimento mais geral de ambientalização das questões sociais. Assim, tanto a educação quanto a religião seguem operando como fundamento do laço social, só que agora, também podem ser investidas dos ideais utópicos de uma ordem societária ecologicamente orientada.  3 Esta dinâmica social que estamos denominando ambientalização só pode ser efetivamente compreendida à luz de seu contexto sociohistórico. É nesta direção que temos intencionalmente o desejo de provocar uma reflexão sobre o papel da educação ao sugerir que as condições sociais e culturais da passagem do século XX para o século XXI parecem tornar a EA plausível como um discurso moral no século XXI. A inteligibilidade de uma educação ambiental como educação moral parece vir se constituindo concomitantemente aos processos de ambientalização da esfera social e, na esfera educativa, à consolidação de uma educação ambiental. Esta configuração  parece consolidar-se na medida em que cresce a adesão aos preceitos de uma EA como articuladora de práticas pedagógicas, estilos de vida e, do que também poderíamos chamar, de comunidades de crença na medida em que estas assumem, em alguma medida, uma orientação ecológica como modo de vida. Neste sentido, postulamos a emergência de um habitus (Bourdieu, 1996)   ou de um idioma ambiental   (Comafroff&Comarff, 2001) em diversas práticas sociais que se formulam a partir de argumentos do tipo ecológico-moral como uma base valorativa válida  para fundamentar o laço social contemporâneo. Esta pretensão na esfera educativa estaria notadamente ancorada numa educação ambiental como educação moral para uma relação virtuosa com o ambiente nos tempos intra e intergeneracional, nos territórios da diversidade cultural e ecológica entre humanos e nas relações entre humanos e não humanos. 3. Justiça Ambiental: ambientalização das questões raciais e da  justiça social É visível nas últimas décadas o fortalecimento das dimensões institucionais do campo ambiental bem como a emergência de novos movimentos na esfera social deste campo. Esta legitimação social de uma questão ambiental nos leva à hipótese de uma ambientalização das esferas sociais caracterizada pelos diversos processos de internalização da questão ambiental que têm atravessado um conjunto de instituições e movimentos sociais. Esta análise tem sido corroborada por diversos estudiosos da sociedade e do fenômeno ambiental no âmbito das ciências humanas como é o caso do geógrafo David Harvey (Harvey, 1999). Neste sentido  poderíamos também destacar os estudos pioneiros de Bullard (1996, 1999) e os trabalhos de Pellow & Brulle (2005) sobre a ambientalização da questão racial no âmbito dos movimentos por  4 direitos civis nos EUA. Tornou-se uma referência na história recente dos movimentos sociais a “conversão ambiental” das populações não branca (negros, asiáticos, latinos e índios) que se mobilizaram no movimento que foi chamado “o que se passa no meu quintal?”  (What´s In My Backyard), cuja reivindicação foi a de que o governo parasse de mandar para suas comunidades empreendimentos poluidores. Com o apoio da Igreja, através da Comissão para justiça racial da Igreja de Cristo (Commission for Racial Justice, United Church of Christ) e das pesquisas do  próprio Robert Bullard desde a Universidade de Atlanta foi produzido o famoso relatório “Toxic Wastes and Race in the United States: A National Report on the Racial and Socio-Economic Characteristics of Communities with Hazardous Waste Sites” lançado em 1987 (UNITED CHURCH OF CHRIST, 1987) que denunciava a relação positiva entre danos ambientais e  bairros habitados por populações não brancas 4 . No Brasil a emergência dos movimentos de  justiça ambiental e a ambientalização dos conflitos sociais tem sido objeto dos estudos de Leite Lopes (2000, 2004a , 2004b, 2006), Acselrad (2010, 2004) , Zhouri (2005, 2007, 2008) entre outros. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental é uma coalizão importante neste sentido. Apoiada  por pesquisadores, militantes e ONGs a Rede opera com os princípios da justiça ambiental identificando e apoiando casos de conflitos ambientais nos quais a distribuição desigual dos custos ambientais atinge territórios e populações vulneráveis. O elemento racial foi destacado  pela Rede Brasileira que realizou o I Seminário sobre Racismo Ambiental em 2006. Neste contexto o conceito de racismo ambiental foi formulado como segue: Chamamos de Racismo Ambiental as injustiças sociais e ambientais que recaem de forma desproporcional sobre etnias vulnerabilizadas. O Racismo Ambiental não se configura apenas através de ações que tenham uma intenção racista, mas igualmente através de ações que tenham impacto racial, não obstante a intenção que lhes tenha dado srcem (Herculano e Pacheco, 2006, p.20) Para nosso argumento também é particularmente importante a contribuição dos trabalhos de Acselrad e de Leite Lopes sobre a ambientalização dos conflitos sociais que apontam como a 4 No site do Centro de Pesquisa em Justiça Ambiental da Universidade de Atlanta http://www.ejrc.cau.edu/ dirigido  por Bullard, além de diversos artigos sobre o tema, são indicadas algumas páginas na internet onde é possível comprovar os resultados de sua pesquisa. Ou seja, saber a localização e os danos ambientais a diversas populações negras que passaram a se mobilizar.  5 formulação da questão ambiental tem configurado novas perspectivas para questão social na esfera pública. Neste sentido, por exemplo, Leite Lopes identifica processos de ambientalização das lutas sindicais articulados a transformações no Estado, a mudanças de comportamento das  pessoas no trabalho, na vida cotidiana e no lazer. Analisa este conjunto de mudanças como parte do fenômeno onde a emergência da questão ambiental opera como nova fonte de legitimidade social. Na mesma direção, Acselrad (2004) e Zhouri (2007) chamam a atenção para os conflitos ambientais como indutores de novas estratégias argumentativas nos conflitos sociais. Os modos de incorporação e, ao mesmo tempo de (re)formulação da questão ambiental  pelas instituições e movimentos que a incorporam aparece na análise do que Leite Lopes (2006) e Acselrad (2010) tem chamado de “argumento”,  mas que propomos deslocar para o que chamaríamos de um idioma ambiental que tem se feito presente em diversas práticas sociais. Este fenômeno nos parece um importante operador de legitimidade social da questão ambiental e também de crença e de identidade cultural relacionada à internalização de uma “orientação ecológica” ou ainda um “habitus ecológico” . Para além do âmbito dos conflitos a questão ambiental parece expandir-se como um argumento ou idioma válido para fundamentar uma moral, uma ética e uma estética na sociedade contemporânea. 4. A ambientalização como tradução da problemática ambiental pelas práticas sociais O sociólogo Boaventura Souza Santos (2005) ao analisar os desafios de articulação entre as lutas contra hegemônicas para produção de alternativas comuns à globalização neoliberal chamou de tradução o trabalho de reconhecimento e compreensão das convergências possíveis entre as práticas diversas de onde poderiam vir as alternativas como os movimentos ecológicos,  pacifistas, indígenas, feministas e de trabalhadores. A tradução e o mútuo reconhecimento entre estas práticas é para Boaventura a condição para o diálogo e a imaginação de outro mundo  possível. Como ele mesmo afirmou: “ Essa tarefa implica um vasto exercício de tradução para expandir a inteligibilidade recíproca sem destruir a identidade dos parceiros da tradução ”
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