Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias

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Semiotics of the city: bodies, spaces, technologies - Cities are made of spaces, bodies and technologies. Semiotics has been working for a long time on these phenomena of meaning. However, the semiotic study of urban spaces have rarely met both

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  28 MARRONE, G. Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias. Galaxia  (São Paulo, Online ), n. 29, p. 28-43, jun. 2015. http://dx.doi.org/10.1590/1982-25542015122803 Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias 1 Gianfranco Marrone Resumo: A cidade é feita de espaços, corpos, tecnologias. A semiótica tem estudado há tempos todos estes três fenômenos de signicação. Todavia, o estudo semiótico do espaço urbano quase nunca foi articulado pela semiótica dos objetos técnicos, nem pela do corpo. Entrelaçar estes três âmbitos, como este artigo busca fazer, aparece, portanto, como um gesto teórico tão urgente quanto necessário. Nestas páginas analisa-se um velho desenho animado de Walt Disney em que o personagem de Pateta muda radicalmente os próprios programas de ação e paixão, condicionado por estar no espaço urbano, como pedestre ou automobilista. Um ator, dois actantes, e consequentemente, dois espaços de signicação diferentes. Palavras-chave: espaço urbano; corpos; espaços; tecnologias; espaços de significação; desenho animado. Abstract: Semiotics of the city: bodies, spaces, technologies  - Cities are made of spaces, bodies and technologies. Semiotics has been working for a long time on these phenomena of meaning. However, the semiotic study of urban spaces have rarely met both semiotics of technical objects and semiotics of body. Dealing with these three elds as this paper aims to do, seems to be an urgent and necessary theoretical move. In its pages an old Walt Disney’s cartoon is analyzed; the main character is Goofy, who changes his passion and action programs depending on he is pedestrian or driver. One actor, two actants and, as a consequence, two meaning spaces. Keywords:  urban space; bodies; spaces; technologies; meaning spaces; cartoon. Espaços urbanos e subjetividade Entre os estudiosos de espaços urbanos já é convenção difundida que a cidade não é exaurida na diferenciação de seus espaços (ruas, praças, jardins, rios e praias, terrenos vagos...) 1  Este texto foi srcinalmente publicado em italiano: "Semiotica della città. Corpi, spazi, tecnologie. Epekeina , vol. 2, n. 1 (2013), pp. 187-203 - Mind and Language Ontology, ISSN: 2281-3209. DOI: 10.7408/epkn.epkn.v2i1.40. Publicado on-line por: CRF – Centro Internazionale per la Ricerca Filosoca, Palermo (Itália) - Disponível em: www.ricercalosoca.it/epekeina.  MARRONE, G. Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias. Galaxia  (São Paulo, Online ), n. 29, p. 28-43, jun. 2015. 29 e na ar ticulação das coisas que a preenchem (edifícios, igrejas e monumentos, sinalética, propagandas, luzes, serviços diversos). Insiste-se no fato que na construção de uma cidade – de qualquer dimensão e complexidade, densidade ou rarefação – são acima de tudo os cidadãos, sejam eles sedentários ou não, residentes ou de passagem, a trabalho ou turistas, que vivem os lugares urbanos, atravessam-nos de acordo com percursos variavelmente estabilizados, valorizando, desvalorizando e revalorizando continuamente estes lugares. De um lado estaria, então, o espaço, natural e construído, condição de possibilidades do ambiente urbano como forma ideal abstrata; de outro se situariam, ao contrário, as pessoas, sujeitos individuais e coletivos que, em determinado espaço, se encontram posicionados de diversas formas, constituindo sua substância social. O todo no interior de uma história e de uma memória que atenua as forças entrópicas do tempo, consolidando homens e coisas, construindo e mantendo retalhos de identidades. A perspectiva dos estudos semióticos, junto a diversas outras ciências humanas e sociais, tentou tornar, ao mesmo tempo, mais complexa e radical a questão: espaços e sujeitos não existem enquanto tais para então encontrar-se e conjungir-se, ora por vontade, ora por destino; muito diferentemente, eles se constituem reciprocamente, são os polos de uma relação que os precede e, fundando-os, os transcende. A cidade nasce na cansativa instituição e na manutenção histórica e identitária de tal relação. Ela não é a somatória de duas entidades autônomas, mas a forma relacional de seu recíproco constituir-se. Não existem espaços autônomos e sujeitos independentes que, em segunda instância, se reúnem mais ou menos casualmente em um determinado ambiente ou situação. Eles se realizam como sujeitos espaciais que, desde o início, se reúnem internamente nos seus corpos e lugares, traduzindo-os uns nos outros e produzindo assim novas formas de subjetividade. Mas o que queremos dizer quando falamos de sujeitos espaciais? A esta pergunta devemos responder com atenção. Se não, porque, precisamente, a semiótica não é a única ou a melhor disciplina a ocupar-se de ambientes urbanos como realidades sociais. Ela intervém antes sobre um status questionis  já discutido, explorado, atestado. E deve declarar, a partir de uma mesma correspondência teórica e analítica, as próprias intenções explorativas especícas e os mapas metodológicos que pretende colocar em jogo. Deve ser recordado então que – à diferença da sociologia, antropologia, psicologia, etc. – os sujeitos dos quais fala a teoria da signicação são entidades abstratas e formais, posições sintáticas de corte narrativo que, à semelhança de seus parentes frásticos (os da análise lógica, para que entendamos), têm um papel muito preciso – desenvolver ou sofrer uma ação, experimentar uma paixão ou provocá-la a outros – de encontro a posições sintáticas concomitantes (objetos, antissujeitos, destinadores, etc.) dentro de um plano de ação pré-constituído e sobre o panorama de um mecanismo estrutural geral de transformação. A subjetividade se constitui dentro de um programa narrativo, no quadro de certa projetualidade que, almejando um objetivo, faz sim com que entre o início e o m de cada história haja um resíduo, uma diferença, talvez uma reviravolta, seguramente uma transformação. No m das contas, ninguém é mais o mesmo.  MARRONE, G. Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias. Galaxia  (São Paulo, Online ), n. 29, p. 28-43, jun. 2015. 30 Assim, não devem ser confundidos os sujeitos como forças sintáticas (tecnicamente actantes ) com as guras do mundo, que, concretizando-os semanticamente, encarregam-se deles ( atores ): que podem ser indivíduos e pessoas, mas também instituições coletivas, criaturas abstratas, feras, entidades espirituais, coisas, tecnologias. Se ao mesmo sujeito actante podem corresponder diversas sionomias de atores (um tapete voador, nas fábulas, é um objeto que pode desenvolver o papel de sujeito), apresenta-se evidente que nossos sujeitos espaciais possam ter mais naturezas, consigam manifestar-se sob diversas e falsas aparências, espreitar ou se esconder tanto a partir de pessoas quanto de edifícios, de objetos ou de paisagens, de casas e coisas, multidões humanas e bairros inteiros, incluindo todas as disciplinas ou artes que materialmente constroem uma cidade – urbanística, engenharia, arquitetura, planicação territorial, etc. – e todos os objetos que, em uma cidade, vivem e se movimentam assim como os sujeitos humanos: automóveis, ônibus e transportes coletivos, trens e metrôs, motocicletas e bicicletas, carroças e riquexós, caminhões comuns e de reboque, scooters, patins e muitos outros.Tudo isso para dizer que, no fundo, de acordo com tal perspectiva teórica os automóveis são sujeitos espaciais, logo sociais, para todos os efeitos: se comportam e são interpretados como tais. E assim como esses, os outros meios de transporte que em um espaço urbano se encontram a existir e a consistir – incluindo os pés do pedestre, ou  pé-móveis  como deveríamos mais exatamente chamá-los, que com as outras tecnologias de deslocamento na cidade se encontram a conviver e a conitar-se. Além disso, para sermos mais precisos, os sujeitos espaciais que vagam pelos itinerários metropolitanos são sempre sujeitos híbridos, feitos de corpos e coisas, de pessoas e tecnologias, de substância humana e não humana: não existem pessoas + carros, mas motoristas em carros, automobilistas, assim como motociclistas, ciclistas, patinadores velozes, usuários de ônibus ou do metrô, etc. Assim como em um poema cavalheiresco, um paladino que por acaso se encontra dotado de uma espada invencível se torna de repente ele próprio invencível, assumindo de fato outros semblantes e novas oportunidades, ao menos até que a espada lhe seja eventualmente subtraída, de forma análoga um sujeito que antes andava – ou depois andará – a pé, não tem as mesmas oportunidades, a mesma vontade de fazer e de andar, as mesmas paixões, o mesmo caráter. A carteira de motorista, sabe-se, torna profundamente diferente a subjetividade do motorista, ou mesmo a reconstitui, caminhando para fundar um sujeito híbrido, metade humano metade não humano, corpo e tecnologia que, entrelaçando-se, se amalgamam em um único programa de ação e de paixão. Um tal híbrido, porém, nunca está sozinho, mônada mais ou menos diabólica, mas vive e opera em um contexto em que outros sujeitos humanos e não humanos, outros híbridos – semelhantes ou diferentes – interagem com ele, transformando-o ulteriormente e sendo por ele transformados. É demasiado fácil falar da antropomorzação do carro ou da mecanização do automobilista. O cenário citadino – de Limoges a Los Angeles, de Monteriggioni a Dubai – é muito mais intrincado, constitutiva e felizmente:  MARRONE, G. Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias. Galaxia  (São Paulo, Online ), n. 29, p. 28-43, jun. 2015. 31 de modo que qualquer sonho nostálgico, ânsia naturalística ou hipótese essencialista precisa obrigatoriamente – é o caso de dizê-lo – de ajuda divina. Ânsias automobilísticas Isso é demonstrado e motivado, oferecendo-nos mais de uma pista de reexão, por um saboroso desenho animado de Walt Disney de 1950, Motormania 2 , em que Pateta-Goofy se encontra às voltas com o automóvel pelas ruas de uma típica pequena cidade norte-americana. As obras de arte são frequentemente impregnadas de teoria. Não necessariamente conscientes de seu alcance losóco, elas manifestam em todo caso nas dobras de seus dispositivos textuais e discursivos, graças aos meios semióticos para sua disposição especíca, uma própria e verdadeira teoria sobre o mundo humano e social, algum movimento conceitual no jogo estratégico das culturas – destinada a permanecer implícita e silenciosa, a menos que uma análise a posteriori  , com os instrumentos de uma metalinguagem metodológica ad hoc , não queira e não saiba explicitá-la, traduzi-la, redizendo-a quase da mesma forma. Talvez não apenas as obras de arte tradicionais, plásticas e gurativas, mas também, como no caso que gostaríamos de brevemente ilustrar aqui, textos midiáticos de alguma espessura e profundidade, sejam eles anúncios publicitários, transmissões televisivas, lmes comerciais ou, precisamente, desenhos para crianças.A mensagem explícita e aparente, do texto em questão, faz evidente referência a Stevenson de doutor Jekill e Mr. Hide: por trás das pessoas comuns, os average men   da burguesia abastada, se esconde sempre uma alma obscura, para cada bom Jekill corresponde assim um terrível Hide. E mesmo o cidadão norte-americano médio, homem totalmente comum, pacíco, honesto e respeitável, esconde uma metamorfose próxima futura: basta que entre no carro para se tornar um indivíduo terrível, briguento, irritante, em meio a indivíduos violentos e ruins como ele. A partir disso tem-se a história de Mr. Walker (um  pé-móvel   já pelo nome), personagem absolutamente dócil e respeitoso em relação à vivência civil, que logo que tira o estrondoso automóvel para fora da garagem, se transforma no opressor Mr. Wheeler, pronto para atropelar ( nomen est omen   também aqui) qualquer um que apareça em sua frente. A cidade é o pano de fundo mais característico dessas contínuas metamorfoses entre Walker e Wheeler, típico duplo narrativo que entra e sai constantemente do carro saltitando ao mesmo tempo entre suas personalidades opostas. O espaço urbano se torna assim a clássica selva metropolitana onde automobilistas e automóveis travam uma guerra extrema e cruel, correm como se estivessem em Indianápolis, apreciando acidentes contínuos e catástrofes mais curiosas quando ocorrem ao outro, ou mesmo sofrendo os abusos gratuitos e os risos sarcásticos e sádicos que o mais forte da vez lhes inige sem piedade. 2  O desenho Motormania  é facilmente encontrado em www.youtube.com na versão srcinal em inglês (http://www.youtube.com/watch?v=0ZgiVicpZGk) ou dublado em português (https://www.youtube.com/ watch?v=RMZ3bsrtJZ0).  MARRONE, G. Semiótica da cidade: corpos, espaços, tecnologias. Galaxia  (São Paulo, Online ), n. 29, p. 28-43, jun. 2015. 32 Uma análise um pouco mais estreita do texto convida, porém, a uma interpretação menos moralista e bondosa desse divertido desenho disneyano, e com ela propõe uma teoria sociossemiótica da cidade como lugar onde os híbridos – em suas contínuas transformações e desregramentos, gurações e recongurações – constituem absolutamente a norma. O espaço urbano, em suma, surge como dispositivo de construção e desconstrução incessante da subjetividade individual e coletiva, onde corpos, espaços e tecnologias – mesclando-se em hierarquias variáveis – aparecem como atores de graus semelhantes, sujeitos precisamente, dotados de programas análogos de ação e de paixão. Segmentação textual Tentaremos segmentar o texto – de pouco mais de seis minutos – em diversas sequências narrativas, a partir das relações de disjunção e conjunção entre o corpo de Pateta e seu veículo, ou seja, das passagens actoriais entre Walker e Wheeler. Para cada uma dessas se identicará um espaço especíco e um relativo percurso em seu interior, e com isso uma série de procedimentos de temporalização, aspectualização, agogia, algumas passagens tímicas e modais, escalas de tensão e intensidade e, consequentemente, como êxito semiótico de tudo isso, um barômetro passional muito movimentado. Propomos para isso a seguinte segmentação: 1. O cemitério do carro: nal2. Walker 1: o jardim de casa3. Wheeler 1: em direção à cidade4. Walker 2: na cidade5. Wheeler 2: o acidente 6. Walker-Wheeler: nalComo já aparece evidente, a estrutura do texto é circular: a narração começa pelo m (o carro no cemitério) e se reconecta ao m nas últimas cenas (o carro se dirige ao cemitério). O que faz imediatamente suspeitar que seja também e, sobretudo, o carro, e não apenas Walker/Wheeler, o protagonista da narrativa, o sujeito que causa as repentinas metamorfoses do average man  e lhe impõe as consequências apropriadas. Mais que um simples auxiliar por trás do qual se esconde um perigoso adversário, como poderia parecer à primeira vista, o carro é um ponto central fortíssimo da história, verdadeiro e próprio sujeito operador que ocasiona as transformações narrativas e se transforma ele mesmo. Neste sentido, semelhante ao sujeito duplamente humano que lhe é análogo. Mas vejamos um pouco mais no detalhamento sequência por sequência. O cemitério do carro: nal As primeiras imagens mostram o carro em péssimo estado, abandonado junto a vários outros em uma espécie de garagem-cemitério da qual, inferimos, nunca mais
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