Resenha de Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica wajãpi

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  - 261 - Gallois, Dominique Tilkin . Ilustrações: índios Wajãpi. Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica wajãpi  , Rio de Janeiro, Museu do Índio-FUNAI/APINA/CTI/NHII-USP, 2002. 72 pp.Aristóteles Barcelos NetoDoutorando do Departamento de Antropologia – USPEm Kusiwa,  Dominique Gallois e os índios Wajãpi realizam um competente emuito bem-vindo trabalho de divulgação artística e etnográfica. A sua ediçãoocorre no âmbito da exposição temporária de longa duração Tempo e espaço na Amazônia: os Wajãpi,  montada no Museu do Índio do Rio de Janeiro.Com um formato adequado para este tipo de publicação (21x21 cm), olivro traz sistematicamente o repertório completo dos 21 motivos gráficostradicionais wajãpi, acrescidos de um importante conjunto de suas variantesformais, além de vinte composições gráficas de 17 diferentes desenhistasdispostas individualmente página a página. Esta solução editorial permite aoleitor uma visão precisa e detalhada do grafismo wajãpi.Os desenhos provêm de coleções formadas nos anos de 1983 e 2000 edemonstram claramente o sucesso wajãpi na incorporação do papel comosuporte e a complexificação de suas composições gráficas nesse intervalo dequase duas décadas. Aliás, tal desenvoltura com técnicas (lápis de cor, tintasacrílicas, guache, aquarela, pastéis etc.) e suportes industriais é algo observadoentre vários grupos da Amazônia como os Shipibo, Conibo, Tikuna, Wauja,Mehinako, Desana, Barasana, etc. A extraordinária complexificação plásticaque os Wajãpi exibem nos desenhos produzidos no ano 2000 parece serdecorrente do próprio valor que a experiência artística tem enquanto reflexãofilosófica. Desenhar sobre o papel com lápis de cor ou guache permite aosWajãpi a obtenção de resultados plásticos mais diversificados do que aquelesobtidos apenas com os seus recursos tradicionais; a cor é um dos principaiselementos para potencializar as possibilidades combinatórias dos motivos eproduzir composições cada vez mais inovadoras.O método de coleta de desenhos sobre papel mostra-se altamente rentávelnão apenas pelo imenso potencial expressivo da imagem, mas sobretudo  - 262 - R EVISTA   DE  A NTROPOLOGIA , S ÃO  P AULO , USP, 2002, V . 45 N º 1. porque a imagem possui, entre outras coisas, o estatuto de veículo de contatoe de presentificação de diferentes realidades ontológicas entre vários povosamazônicos. Para o entendimento de mundos não-humanos na Amazônia,canais de comunicação como as cores, as melodias, os odores, as coreografiase os grafismos demonstram ser em muitos casos mais vigorosos do que apalavra simplesmente, daí a importância de uma ênfase teórica sobre o campodas artes.Os motivos gráficos wajãpi possuem denominações de animais e artefatos,as quais, na verdade, não estabelecem uma relação semiótica entre referente ereferência tal qual faz sentido para grande parte das artes ocidentais. Portanto,não teriam verdadeira utilidade análises formalistas centradas nos elementos emotivos gráficos em si, e muito menos a aplicação de paradigmas lingüísticos,pois estes não teriam qualquer rendimento para o estudo do kusiwa  . O focode interesse é de fato a composição gráfica, o meio expressivo que realiza emâmbito global o estilo inconfundivelmente wajãpi. Os motivos isolados poucorevelam sobre o modo wajãpi de pensar a arte, é só através das composiçõese dos suportes onde elas surgem que algo realmente sério pode começar a serdito.Uma outra questão de suma importância que Gallois comenta é que osWajãpi não demonstram interesse em discutir sua arte em termos de “significadossimbólicos”. Buscar “conteúdos simbólicos” nos desenhos kusiwa   pode resultarem uma fabulação    etnográfica  , pois a rigor as composições estão interessadas em(e são interessantes por) gerar um estado próprio de beleza wajãpi. Muitasetnografias vêm expondo, aqui e ali, o objetivo indígena em gerar beleza atravésdo grafismo 1 , sem no entanto analisar o fenômeno em profundidade. Estenão é o propósito da obra de Gallois, mas penso que na mesma medida queela divulga os resultados do esforço wajãpi em produzir beleza para si próprios,ela desperta para a questão do lugar social da estética indígena na Amazônia.Se a socialidade e o pensamento social amazônicos operam por categoriasestéticas como tão bem demonstrou Joanna Overing e Elsje Lagrou em seustrabalhos sobre os Piaroa e os Kaxinawa respectivamente, penso que não seriaum reducionismo comparativo lançar a hipótese de que o kusiwa   ocupa umlugar bastante produtivo na socialidade wajãpi. O kusiwa   é mais um exemplode que vale a pena investir em pesquisas sobre a socialidade amazônica viaexperiências artísticas e concepções estéticas nativas.  - 263 - R EVISTA   DE  A NTROPOLOGIA , S ÃO  P AULO , USP, 2002, V . 45 N º 1. Os Wajãpi, assim como vários outros grupos amazônicos, têm pelo menosum grande ofídio como um dos principais personagens responsáveis pelasrcem e, ou, dispersão da arte gráfica, mas a criação srcinal das cobras nãoé um evento do passado, mais do que criadoras elas são “donas” da criaçãográfica que persiste nos corpos e artefatos produzidos atualmente pelos índiosamazônicos. Assim, a transposição   dos motivos de um mundo para o outroproduz uma mudança de distância - que aproxima ou separa - entre humanose não-humanos (Gallois, 1992). Enfim, o kusiwa   permite aos Wajãpi manipular  as relações sociais com os estrangeiros, os bichos-humanos   (ou humanos-bichos  ) deoutros tempos e de hoje. Nota 1Esse modelo, no entanto, contrasta fortemente com o dos grupos jê do BrasilCentral, para os quais o grafismo se constitui muito mais como um tipo de“código visual” que informa, com precisão, a respeito de categorias sociais (videcontribuições Vidal, 1992). Bibliografia GALLOIS, D. T.1992“Arte iconográfica waiãpi”, in VIDAL, L. (org.), Grafismo Indígena. Estudos de Antropologia Estética,  São Paulo, Studio Nobel/Edusp/Fapesp, pp.209-30.VIDAL, L. (ORG.)1992 Grafismo indígena. Estudos de Antropologia Estética  , São Paulo, Studio Nobel/Edusp/Fapesp.
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